“Falta decisão e determinação, por uma região forte”

José Gameiro, presidente da Associação Empresarial da Beira Baixa, fala das comunidades intermunicipais, e afirma que "desde a construção da A23, que não há projetos transversais ao território"

42

(Entrevista a José Gameiro: Continuação) _________  

Na tomada de posse disse que a região tem estado “fraturada” e “sem capacidade de liderança”. Certamente, referia-se à ação do poder político. Considera que os decisores locais têm apenas estado preocupados em gerir a sua «capela», faltando-lhes a capacidade de pensar o território na globalidade?

Não diria que falta capacidade, mas direi que falta decisão e determinação, por uma região forte no seu todo. Sem dúvida que cada território, ou pedaço de território tem a sua especificidade, particularidade e mais-valia. E que cada um de nós tem que fazer o máximo, pela diferença e valorização de cada pedaço desses territórios. Mas há as ações concertadas, que são fundamentais para que se possa valorizar todo o território. E aí sim, essas ações não existem, ou são muito ténues. Para se ser líder, tem que se juntar o querer, o reconhecimento dos pares e a capacidade de motivação própria, tem que mobilizar a envolvente, o que não tem acontecido. Diria mesmo, que talvez desde a construção da A23, que não há projetos transversais ao território. Mesmo a ferrovia, tem vindo a evoluir, mas de forma bastante lenta e faseada no tempo, o que não permite de uma vez só, criar a diferença na região. É que apesar dos investimentos efetuados, por exemplo, na eletrificação da Linha da Beira Baixa, até à Covilhã, o processo não foi acompanhado pelo intensificar do tráfego nem da modernização do equipamento circulante, nem sequer de horários compatíveis, que permitam substituir as viaturas em alguns casos. Estas medidas têm que acompanhar as necessidades do território, e dar respostas em tempo útil.

Esta região tem pouco peso político, face ao número de eleitores. Na sua opinião foi um erro criar neste território duas Comunidades Intermunicipais?

Não podemos julgar essa decisão, de forma assim tão linear. Seguramente que houve razões para que assim fossem criadas, se bem que me parece que estas não terão tido a divulgação adequada e sobre as mesmas tão terá sido permitido o envolvimento dos cidadãos. De uma forma geral, toda a faixa interior tem pouco peso político, mas se estamos à espera de maior peso político, pelo número de pessoas, estamos em regressão, como todos sabemos. Lisboa é muito longe, para quem tem que lidar com esta região e como tal sendo difícil tomar medidas acertadas sobre a mesma. Mas Lisboa tem que ser perto, forçosamente, para quem habita a região, pela dependência das várias decisões aí tomadas, que nos influenciam. Enquanto houver esta desigualdade de atitudes, em relação ao território, não podemos contar com todo o envolvimento do poder central, em decisões assertivas, sobre a região. E aí, sim, nota-se a falta de coesão do território, capaz de obrigar à tomada de decisões assertivas. Aliás, as Comunidades Intermunicipais, deveriam ser, uma boa ferramenta de organização do território, para uma revindicação concertada e na verdade não o terão sido, salvo algumas exceções, como é óbvio.

 


 

“Assistimos todos os dias, a notícias de reposição de direitos capturados, para enfrentar a crise e, por isso, as empresas da região, revindicam igualmente o alívio dos sacrifícios impostos, por via da colocação de portagens nas ex-SCUTS”

José Gameiro, presidente da Associação Empresarial da Beira Baixa

 

 


 

Ainda assim, a fusão da Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela com a Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa deve ser concretizada em 2020?

Não sei sequer se essa fusão será desejável ou possível e se traria vantagens para o território. O mais importante será elevar as potencialidades da região e, se for caso disso, repensar uma reorganização diferente. O que posso dizer é que tanto nesta organização do território, como em qualquer outra, o mais importante será envolver as pessoas da região nas decisões. Não acredito em movimentos de pensamento para a Região, que não envolvam as pessoas que ocupam o território. E tem que ser um envolvimento, que vá para além das campanhas eleitorais e mesmo das grandes vitórias das forças políticas, em anos de eleições.

Publicidade

Aliás estes ciclos, não passam de ensaios de gestão de emoções, que se esvaem logo de seguida, sem que daí resultem projetos bandeira. Portanto, se a fusão for um caminho, pois que seja, mas com as pessoas. Se a situação se mantiver assim, pois que se mantenha, mas com as pessoas.

 

A Associação Empresarial da Beira Baixa tem como objetivo ajudar a desenvolver a nível económico e social este território, desiderato que a Unidade de Missão para a Valorização do Interior também pretendia atingir. Que avaliação faz do trabalho desenvolvido por este organismo?

Todos os estudos e trabalhos sobre o território, têm campo de manobra para serem melhorados. Quero também dizer, que no caso da Unidade de Missão para a Valorização do Interior, a AEBB teve o seu papel, solicitando audiência em que apresentou o seu ponto de vista e se ofereceu para colaborar sempre que fosse necessário. Seguramente que também neste caso, o diagnóstico para a tomada das medidas necessárias, não terá envolvido o número de pessoas chave, da região. Esta é aliás, uma matéria sensível e de importância capital para a região, sendo que se quisermos ser francos na análise, o trabalho ficou muito aquém do necessário. Não quero questionar as pessoas que o fizeram, os métodos utilizados, nem os pressupostos tidos em conta, mas na verdade, todos esperávamos mais. Não mais medidas, mas mais assertividade e objetividade nas mesmas. Mas tratando-se de decisões políticas, estou em querer que haverá seguramente campo de manobra para refazer um novo diagnóstico e refazer um novo leque de medidas compactas e objetivas, que possam apontar caminhos em face do novo quadro comunitário, que devemos começar já a trabalhar.

Artigo relacionado »»

“O ano de 2018 seria fundamental para a formulação de projetos globais”

** fórum Covilhã