Castelo da Covilhã: um mistério enterrado pelo pó do tempo

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Fachada lateral da alcáçova do castelo (foto de João Alves Correia)

Por: Tetyana Ostapchuk e João Alves Correia ___________

Terra milenar, a Covilhã possuiu, em tempos, um castelo cujas origens não se conhecem e cujos esforços arqueológicos mais recentes pouco revelaram. Partimos em busca de informações concretas junto de uma das autoridades museológicas da cidade, Carlos Dias Madaleno.

Para compreender melhor e visualizar mentalmente a época em que ainda existia o castelo e as suas muralhas, fizemos um percurso através do qual todos os aspetos que continham estes elementos estiveram presentes.

A origem do castelo e das muralhas é incerta: no livro de José Reis Barata, “Covilhã – Nascimento – Consolidação”, este afirma que é obra de D. Dinis (séc. XIII/XIV); já em “Covilhã Medieval – O Espaço e as Gentes (Séculos XII a XV)”, Maria da Graça Vicente defende que aquele e todas as muralhas foram construídas por D. Sancho I (séc. XIII). Carlos Madaleno indicou que, “no séc. VII, aquando das invasões muçulmanas, passou a considerar-se aquilo que é definido como castelo”.

A generalidade das gentes da Beira Interior julga que o castelo se resume aos resquícios da muralha que ainda hoje se encontram nas Portas do Sol, quando, de facto, essa muralha fez parte de uma antiga muralha (entretanto desaparecida) mais ampla e com um diâmetro muito superior ao que os cidadãos imaginam.

Carlos Dias Madaleno, coordenador museológico de todos os museus do município da Covilhã e em que se insere o Museu de Arte Sacra da Covilhã, levou-nos numa visita guiada ao perímetro da muralha que envolvia o castelo e sua urbe (cidade). Partimos do Museu para a Travessa do Postiguinho, um pouco antes do edifício da Águas da Covilhã, e onde começa o pano (enxertos) de muralha, que se distingue da parede mais moderna pela sua construção utilizando a técnica da junta seca, ou seja, por os espaços entre as pedras não terem preenchimento com outros materiais, como é habitual. A própria localização do Postiguinho é incerta. Do cimo da Travessa, onde hoje se situa o edifício da Câmara Municipal da Covilhã, via-se um arco central, que era o arco da vila.

Continuando em frente, chegámos ao Calvário, também conhecido como Capela de Nossa Senhora de ao Pé da Cruz, onde se situava a entrada para o castelo (ou seja, o edifício do castelo), bem como a sua alcáçova (fortaleza principal que rodeava o edifício do castelo) e a porta principal (Porta do Castelo). A Torre de Menagem, ainda hoje visível no local, está no sítio da antiga alcáçova. Logo após, encontrámos um depósito de água que substituiu um aqueduto, do qual resistiram vestígios líticos (amostras em pedra do que tinha sido o aqueduto). Entrando dentro do castelo, descemos até ao local onde se encontravam fábricas do século XVIII e pertenças dos Monteiro Mor e, à saída dessas, dirigimo-nos para as escadas do castelo, em direção à antiga igreja de Nossa Senhora do Rosário, após o que descemos em direção à Rua Comendador Gomes Correia, onde se observa um dos fins do pano de muralha (estando em frente à placa toponímica desta Rua, o pano termina à direita, em direção à Rua da Saudade.

Cortando à esquerda para a Rua Cristóvão de Castro, dirigimo-nos até à lateral do Mercado Municipal, onde se encontra, à esquerda, a antiga Porta de São Vicente, que era uma das entradas principais para o castelo. Para melhor identificação das portas do castelo, as suas entradas são demarcadaspor faixas de pedra no chão. Esta porta era invulgar por ser extremamente larga, coisa inédita na arquitetura dos castelos, e a entrada era íngreme e com curvas para sua proteção. Continuámos em frente e desembocámos no largo das Portas do Sol, onde se situava a barbacã (primeira muralha exterior à muralha principal e que servia como primeira linha de defesa dessa). A muralha principal estava situada numa das melhores zonas defensivas, devido à sua altura – avistavam-se forças invasoras a 15 Km de distância.

Adentrando as Portas do Sol, fomos em direção às traseiras da Câmara Municipal, onde se encontra o Memorial da Casa da Hera, pertença do alcaide-mor D. Fernando de Castro. Continuámos em direção ao antigo Banco de Portugal, logo após o Teatro Municipal e no mesmo lado deste edifício. É neste local que se verificam os últimos panos de muralha. Regressámos, por fim, ao ponto de partida (o Museu), agora cientes de que o castelo não está delimitado apenas pelo pano de muralha visível nas Portas do Sol, mas sim delimitado pelo diâmetro de todo o trajeto que percorremos.

Museu de Arte Sacra da Covilhã disponibiliza visitas guiadas gratuitas a grupos a este percurso pedonal consoante marcação prévia de 48 horas.