Política: “um dever de cidadania!” defende Bruno Costa (UBI)

"Existe um crónico défice democrático na U.E., um alheamento acentuado dos jovens face às questões políticas, associadas a um certo desencanto resultante dos casos de corrupção, de discursos herméticos e sem impacto ou consequência na vida real", afirma Bruno Costa, da UBI, que quer os jovens a construir o presente...

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A 9 de Maio celebramos a Europa. Tomamos por base a União Europeia – que não é una mas múltipla -, mas temos ainda a Rússia e a sua área de influência nos países da antiga URSS, alguns deles ainda muito dependentes dos humores do Kremlin.

Como é que esta Europa enfrenta a desordem de um “mundo em constante ebulição”? Qual o seu papel num previsível “mundo bipolar (EUA vs Rússia)”?  E como se podem manter a cultura europeia se esta é atravessada por fluxo migratórios que lhe vão mudar a face em poucas gerações? Como se constrói esta união na diversidade?

Há muitas perguntas em aberto, mas a população parece alhear-se, como se a Europa fosse apenas um monte de burocracias de onde vem algum dinheiro… a Europa é um mealheiro ou um projecto demasiado importante para não lhe darmos atenção?  Sobre tudo isto falámos com Bruno Daniel  Ferreira da Costa, diretor da Licenciatura de Ciência Política e Relações Internacionais da UBI, que ontem esteve na Biblioteca Municipal da Covilhã a dar uma aula aberta…

 


 

Qual o papel da Europa na desordem que se vive no mundo?

A União Europeia desempenha um papel central na modelação das relações internacionais. Desde sempre o continente europeu foi percecionado como um dos motores do desenvolvimento e do progresso, sendo desde meados do século XX o exemplo da defesa do modelo democrático e dos direitos humanos. Num mundo em constante ebulição relativamente ao papel de países como os EUA, a Rússia ou a China, a Europa desempenha um papel moderador, mas igualmente um papel com relevância política, fruto da sua dimensão (geográfica e populacional), bem como da dimensão económica do mercado europeu.

Por outro lado, o forte papel diplomático dos países europeus funciona como um catalisador para a promoção do diálogo e a procura de solução pacífica dos conflitos. Num cenário de desordem a Europa não tem alternativa, ou actua na procura de consensos, ou arrisca-se a torna-se irrelevante.

Longe de defender qualquer supremacia do projeto europeu ou do modo de vida ocidental, a Europa tem de assumir-se como defensora dos direitos humanos e do direito à igualdade de oportunidades.

“Alleppo(nica)” Cartoon de Vasco Gargalo

Fala-se da relação Europa / EUA, mas qual a relação que nos cabe com a Rússia cada vez mais interventiva no plano geopolítico internacional?

A aliança histórica entre a Europa e os EUA não está colocada em causa, mesmo com um posicionamento político mais distante e imprevisível do atual Presidente dos Estados Unidos. No entanto, o contínuo alargamento a leste por parte da União Europeia conduziu à inclusão de diversos países com fortes ligações políticas e económicas à Rússia, mesmo existindo uma certa dependência do poder político e económico russo. Esta situação conduz a uma maior dificuldade para a emergência de um posicionamento conjunto dos Estados-membros relativamente à postura a adotar em relação à Rússia.

A inclusão da Rússia no Conselho de Segurança da ONU, onde tem assento permanente e poder de veto, conduz à necessidade dos Estados europeus evitarem qualquer cenário de guerra económica ou comercial com a Rússia, no entanto, os países europeus devem ser intransigentes na procura da defesa dos valores democráticos e na investigação de todos os cenários de hipotética influência russa na política doméstica dos seus Estados. Por outro lado, as relações económicas entre a Rússia e diversos Estados europeus, bem como a partilha de fronteiras físicas implica a promoção de um relacionamento estável e assente na diplomacia construtiva.

O regresso a um mundo bipolar (EUA vs Rússia) embora possível, assumirá sempre contornos diferentes do vívido no pós-II Guerra Mundial, desempenhado aqui a Europa um papel conciliador e criador de pontes de contacto entre os dois países mencionados. Neste contexto, será sempre um erro a Europa assumir a Rússia como um “inimigo”, pelo que o caminho deve abranger portas de negociação amplas e conducentes a parcerias estratégicas entre a U.E. e a Rússia.

 


“Os jovens não são a geração do futuro, mas agentes centrais na definição das políticas do presente”


 

 

A baixa natalidade e os fluxos migratórios são apontadas como causa para uma crescente islamização da Europa. É um perigo para a identidade europeia?

O facto das comunidades islâmicas e de um modo global as comunidades imigrantes no continente europeu apresentarem taxas de natalidade mais elevadas do que as comunidades nacionais conduzem a um debate centrado na reformulação da identidade europeia e na hipotética ameaça das comunidades imigrantes aos valores e à cultura europeia.

Contudo este debate não tem em consideração o facto dos europeus serem por natureza migrantes e promotores do multiculturalismo. Por outro lado, a construção do projeto europeu e da identidade europeia é um desafio diário, resultante destes movimentos migratórios e das mudanças sociais e culturais existentes e não necessariamente uma consequência de uma maior proporção de população islâmica na Europa. A matriz das sociedades europeias deve estar centrada na valorização do lema comunitário “unidos da diversidade” e como tal esta vaga migrante não pode ser entendida como uma ameaça, mas como uma oportunidade de crescimento e construção de uma identidade europeia mais completa e abrangente. Tal não impede que se defende um conjunto de princípios e valores associados ao modo de vida ocidental e resultado da matriz e da história do continente europeu, mas as sociedades não são imunes à mudança. O que este movimento migratório não pode colocar é em causa o modo de vida europeu, centrado na liberdade de opinião, liberdade de expressão, na defesa intransigente da democracia e da proteção das minorias.

“A política deve ser apreendida como um dever de cidadania de todos, pelo que os jovens têm uma responsabilidade acrescida na construção da sociedade”

Para os jovens existe a Europa do Interrail, mas ainda não conhecem a Europa política, porquê?

Falta um verdadeiro processo de formação cívica e alerta para a importância da União Europeia no nosso quotidiano. Aproximar os eleitos dos eleitores, aproximar a realidade europeia, desconstruir a “burocracia comunitária” e apresentar de forma simplificada os mecanismos de acesso às oportunidades que o projeto europeu disponibiliza aos jovens.

Este afastamento é crónico e não incide apenas sobre as questões comunitárias, a perceção de que a democracia, a liberdade e o voto são pressupostos adquiridos na nossa sociedade pode conduzir a um menor grau de exigência dos jovens face ao sistema político e aos seus representantes.

A política não pode ser um domínio associado apenas às ciências sociais ou a uma determinada elite, a política deve ser apreendida como um dever de cidadania de todos, pelo que os jovens têm uma responsabilidade acrescida na construção da sociedade e na participação nos debates em torno desta presença no projeto comunitário. Existe um crónico défice democrático na U.E., um alheamento acentuado dos jovens face às questões políticas, associadas a um certo desencanto resultante dos casos de corrupção, de discursos herméticos e sem impacto ou consequência na vida real, bem como de uma sociedade cada vez mais virtual e menos pragmática.

Por outro lado verifica-se um desfasamento entre a definição de políticas e as prioridades estabelecidas pelos atores políticos e as necessidades dos jovens. É uma questão geracional, mas que implica um trabalho colaborativo. Os jovens não são a geração do futuro, mas agentes centrais na definição das políticas do presente. Construir a sociedade sem o seu contributo é não compreender as dinâmicas necessárias em que vivemos na atualidade.


Europa (Vasco Gargalo)

“A matriz das sociedades europeias deve estar centrada na valorização do lema comunitário “unidos da diversidade” e como tal esta vaga migrante não pode ser entendida como uma ameaça”

Bruno Miguel Ferreira da Costa, diretor da Licenciatura de Ciência Política e Relações Internacionais da UBI