Como José SÓCRATES dominou o PS 

Primeiro, a JS da Covilhã. Depois, o poder em Castelo Branco, o lugar de deputado, o cargo no governo e a liderança. Ano a ano, pouco a pouco, conquistou o PS. Eis a história de um plano que deu certo... O “provinciano” que chega a deputado... e depois a Primeiro-Ministro!

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Guterres e Sócrates na campanha das legislativas, em 1999. Guterres comentava com o seu staff: “Veste-se de uma maneira…”

Por: Rita Dinis e Rita Tavares  ___________

Primeiro, a JS da Covilhã. Depois, o poder em Castelo Branco, o lugar de deputado, o cargo no governo e a liderança. Ano a ano, pouco a pouco, conquistou o PS. Eis a história de um plano que deu certo

 

Covilhã. Como Sócrates entra no PS

Era o segundo fim de semana de julho e, por isso, lá estava ele. Num Mercedes, com calças verdes (ou, consoante as memórias, um casaco amarelo) que lhe davam um ar ligeiramente excêntrico. Nunca chegou a viver em Vilar de Maçada, concelho de Alijó, Vila Real, mas a terra que unia as raízes da mãe e do pai sempre fez parte do seu itinerário. Nem que fosse naquela paragem obrigatória de verão, quando a vila parava por causa das festas em honra de Nosso Senhor Jesus da Capelinha. Começou por ir levado pelo pai, meio a contragosto. Depois, já mais velho, ia pela força da vontade. Era, lá está, o segundo domingo de julho, algures na segunda metade da década de 70, e os rapazes mais novos da terra viam-no chegar ao volante com curiosidade. “Eu era um miúdo aos olhos dele, não me ligava nenhuma, mas ele fazia-se notar. Era o protótipo do rapaz popular, rodeado de pessoas que se via que gostavam dele”, conta ao Observador um conterrâneo, que se tornaria também político mas que não quer ser identificado.

Tinha um “magnetismo especial”. Era isso. Há aqueles miúdos que passam despercebidos e há os outros, os que exercem influência sobre o grupo — e que não gostam de perder em nada. Nem no xadrez. Sobretudo no xadrez, jogo que gostava de jogar mas onde não admitia ficar em segundo. Em comparação com os outros jovens da mesma idade, nascidos e criados no interior do país, este tinha mais estatuto, mais autonomia, mais mundo. “Naquela altura, há 30 ou 40 anos, o estatuto de uma família media-se pelo número de carros e de empregadas que tinha. Tinham carro? Tinham. Tinham empregada? Tinham: quatro. Tinham uma empregada só para as crianças? Tinham!”. Não era comum. “Era mais moderno do que as pessoas do seu tempo, que quanto mais seguissem o padrão, melhor”, conta outro amigo de infância. “Tinha vontade de ser diferente.”

Hoje, há quem olhe para trás e recorde uma “certa mitologia” que havia à volta daquela família de Vila Real. Parece que o avô materno, Júlio “Reco” Monteiro, que terá feito fortuna com as minas de volfrâmio e que mais tarde teria sucesso no negócio imobiliário, não queria que a filha Maria Adelaide casasse com o jovem arquiteto Fernando Pinto de Sousa. As duas famílias eram da mesma vila, mas enquanto os primeiros eram vistos como uma espécie de aristocracia rural, os segundos, de origens mais humildes, eram uma espécie de burguesia ascendente. Novos ricos. E isso não agradava a Júlio Reco. Os dois apaixonados levariam a melhor: Maria Adelaide casou-se com o arquiteto Fernando Pinto de Sousa, mas o casamento não durou, e — afronta das afrontas –, separaram-se anos antes do 25 de abril, quando a sociedade ainda reprovava o divórcio. Até nisso, os pais eram “mais modernos do que as pessoas do seu tempo”. Depois da separação, Zé, o filho do meio, ficaria com o pai na Covilhã; e Ana Maria e António José, filha mais velha e filho mais novo, debaixo das saias da mãe.

“Naquela altura, há 30 ou 40 anos, o estatuto de uma família media-se pelo número de carros e de empregadas que tinha. A família de Sócrates tinham carro? Tinha. Tinha empregada? Tinha: quatro. Tinha uma empregada só para as crianças? Tinha!”
Amigo de infância de José Sócrates

Mas esta não é uma história familiar, nem sequer é a história de José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, o Zézito que gostava de ser tratado pelo seu nome de filósofo. Esta é a história de como um jovem que não fez carreira na Jota subiu os degraus do poder, embalado por um vento favorável de sucessão de acontecimentos. Que depois virou tempestade — mas isso seria muito, muito depois.

Tudo começou quando, aos 26 anos, José Sócrates conquistou a liderança da federação socialista de Castelo Branco, em 1984, num feito que surpreendeu tudo e todos e que agradou a uma pessoa em particular: António Guterres. É que Sócrates só andava na juventude partidária há coisa de dois ou três anos e era praticamente um desconhecido na região. Primeiro fez frente a Guterres, conterrâneo do mesmo distrito; e, depois, tornou-se o primeiro líder de uma federação do PS a ser abertamente contra Mário Soares e a favor do grupo do ex-Secretariado, o famoso grupo que se reunia no sótão de Guterres em Algés. Como é que isto aconteceu? Com um plano minucioso arquitetado com o amigo Jorge Patrão. Tudo começou na Covilhã.

JS, um meio para atingir um fim

Foi uma “jogada de mestre”, descreve uma fonte que conheceu José Sócrates naquele congresso distrital de 1984, e que viria a acompanhá-lo desde então. O plano foi arquitetado por José Sócrates e por Jorge Patrão, o amigo de infância que o “convenceu” a entrar na política. Primeiro na JSD, depois na JS. Sim, na JSD, nos tempos quentes do pós-25 de abril de 1974. “Foi um incidente. Na altura, eu era um verdadeiro social-democrata, como aliás ainda sou hoje. E mantenho-me fiel a esses ideais do socialismo reformista. Por isso, em 74, inscrevi-me logo no primeiro partido com o nome de Social Democrata. Era um dogmático em relação à social-democracia e achava que esta seria uma boa resposta para as sociedades. Inscrevi-me no PSD juntamente com o meu amigo Jorge Patrão, que é hoje presidente da Região de Turismo da Serra da Estrela, e com o Luís Patrão, seu irmão”, disse Sócrates em 2001, numa entrevista ao jornal online da Universidade da Beira Interior, da Covilhã, quando já era ministro do Ambiente de Guterres. A saída do PSD aconteceu logo em 1975, no congresso de Aveiro, na mesma altura em que abandonaram o partido outras figuras, como Mota Pinto. Saiu quando se apercebeu, conta, de que “o nome PSD não correspondia aos ideais políticos de um partido liberal”.


“Primeiro, não tinha nenhuma vocação para a política partidária, e, depois, os meus interesses eram muito variados: teatro, filosofia, cinema, política também. Tudo aquilo que um jovem, nessa altura, num momento de tamanha turbulência tinha. Não sentia um interesse orgânico pela política.”

José Sócrates citado no livro “Sócrates – O menino de ouro do PS”

Depois da primeira incursão na JSD, Sócrates manteve-se fora da atividade partidária. Inclusive durante o tempo em que tirou o bacharelato no Instituto Superior de Engenharia de Coimbra e conviveu de perto com Luís Patrão, que era dirigente da associação académica e filiado na JS. Acabado o curso, Sócrates trocou a Covilhã, onde vivia, por Lisboa. Foi para Cascais, para um apartamento junto da mãe e dos irmãos, que entretanto tinham deixado Vila Real. Mas foi da família do pai que se aproximou — através do tio António Pinto de Sousa, que também vivia na Linha. Este foi o tempo das saídas, das festas, e de conhecer o estrangeiro: pegou num carro, certo verão, e foi com um amigo de Chaves rumo a Espanha, França e Holanda, de tenda às costas. Trabalharam nas vindimas e fizeram vida comunitária. O PS — e a JS –, por esta hora, ainda estavam longe das suas ideias. “Primeiro, não tinha nenhuma vocação para a política partidária; e, depois, os meus interesses eram muito variados: teatro, filosofia, cinema, política também. Tudo aquilo que um jovem, nessa altura, num momento de tamanha turbulência, tinha. Não sentia um interesse orgânico pela política”, contaria a Eduarda Maio, na biografia “Sócrates — O menino de ouro do PS”.

Isto mudou quando, em 1980, José Sócrates foi colocado, sem grande entusiasmo, como engenheiro técnico na Câmara Municipal da Covilhã, na área do saneamento municipal. Se até aqui só estava com os irmãos Patrão nas férias grandes, o regresso à Covilhã foi também o regresso ao contacto diário com os dois, que eram militantes na Juventude Socialista local. Foi nessa altura que Jorge Patrão o convenceu a filiar-se. Já aí, Sócrates tinha uma agenda: desde que Mário Soares ensaiara, em 1978, uma coligação falhada com os democratas-cristãos que, no limite, conduziu à vitória eleitoral do PSD de Sá Carneiro em coligação com o CDS de Freitas do Amaral, que os socialistas se dividiram entre o PS pró-Mário Soares e o PS do sangue novo, que se reunia no sótão de António Guterres em Algés, e onde estavam figuras como Jorge Sampaio, António Arnaut ou Vítor Constâncio. Era o chamado grupo do ex-Secretariado. Sócrates queria dar-lhes gás, e foi por isso que se juntou à Jota na Covilhã.

Mas que poder ou influência tinha José Sócrates para apoiar ou mudar alguma coisa? Nenhum, aparentemente, mas depressa encontraria uma maneira de intervir. Dinheiro, pelo menos, tinha. É que o avô materno, Júlio César “Reco” Monteiro, morrera no início da década de 80 e deixara a fortuna aos filhos. Para a mãe de Sócrates foi uma grande fatia, que distribuiu pelos seus filhos. Era, sobretudo, património imobiliário, mas José Sócrates fez questão de pedir a sua parte em dinheiro — iria usá-lo na política.

 

Fez frente a Guterres e tornou-se o seu delfim

 

O primeiro envolvimento político foi na elaboração das listas de deputados no distrito de Castelo Branco, nas eleições legislativas de abril de 1983, onde Sócrates e Jorge Patrão, que tinham peso na JS da Covilhã, se bateram para que António Guterres não fosse excluído da lista de deputados. Não tiveram sucesso — a direção nacional de Mário Soares quis limpar os membros do ex-Secretariado para não minarem a bancada no Parlamento. De qualquer forma, e apesar da oposição interna crescente, o PS de Mário Soares voltou ao poder (mas em bloco central, com o PSD de Carlos Mota Pinto). Paralelamente, travou-se a primeira verdadeira luta de José Sócrates, esta sim protagonizada por ele e pelo amigo Jorge Patrão: ganhar peso no partido.

É que, no mesmo ano, realizou-se o V Congresso do PS e o plano de Sócrates e Patrão era pôr membros da JS da Covilhã como delegados ao congresso. Como é que isso se fazia? Primeiro, era preciso uma lista. Depois, dinheiro para a promoção da lista: aí entrou Sócrates, que financiou tudo, usando o seu ordenado da câmara e o seu Mercedes pessoal para as voltinhas de campanha pelo concelho. Se não chegava, pedia dinheiro à mãe. E, depois, era preciso que a sua lista ganhasse para poderem ser eles, os jotas, a indicar o nome da Covilhã para a comissão nacional do PS. Foi aqui que Sócrates teve de fazer frente a Guterres, e foi isso que lhe valeu a sua admiração.

José Sócrates numa intervenção no plenário do Parlamento, em 1988

Edite Estrela, que viria a ser amiga próxima de Sócrates nos tempos da Assembleia da República, e até madrinha de casamento, lembra-se bem dessa altura, porque foi quando o conheceu. “Foi António Guterres que me apresentou o José Sócrates, por volta de 1983, depois da confusão das listas a deputados no distrito de Castelo Branco nas legislativas de 1983. Jorge Patrão e José Sócrates tentaram pôr membros da JS da Covilhã no Congresso do PS e conseguiram, derrotando a lista apoiada pelo Guterres. Essa vitória impressionou-o. Guterres falava dele como um político muito promissor, com muita admiração”, diz ao Observador.

Regra número um: “Em democracia, quem ganha decide” (como viria a dizer José Sócrates cara a cara com António Guterres). Foi com esta máxima que a dupla Sócrates-Patrão se empenhou em ganhar a representação do PS da Covilhã no Congresso nacional do partido. Os dados eram estes: a concelhia da Covilhã era liderada por Alfredo Pinto da Silva, deputado constituinte e amigo próximo de Guterres; os jovens socialistas da Covilhã propuseram-lhe que alternasse a lista de delegados ao congresso entre um sénior e um jota, mas Pinto da Silva não concordou; a única solução era criar uma lista concorrente, só com membros da JS, com Patrão e Sócrates à cabeça. Essa lista acabou por concorrer contra a de Pinto da Silva, que apoiava Guterres, e contra uma outra, encabeçada pelo presidente da câmara da Covilhã e afeta à direção nacional de Mário Soares. O acordo é explicado ao pormenor por Fernando Serrasqueiro, na biografia “Sócrates — O menino de ouro do PS”: António Guterres não saiu nada favorecido com esta divisão naquele que era o principal concelho do distrito de Castelo Branco, mas Sócrates e Patrão não hesitaram.

Resultado? Cada lista elegeu dois delegados ao Congresso, e, surpresa das surpresas, a lista dos juniores foi mesmo a mais votada. Logo, era a eles que cabia escolher o nome para representar a Covilhã nos órgãos nacionais do partido. Quem não gostou disto foi António Guterres, que precisava de ver a sua posição consolidada no PS. Nas vésperas do Congresso, Guterres foi, ele próprio, ter com os jovens turcos à Covilhã para os convencer a juntar-se aos outros dois delegados eleitos pela lista afeta ao ex-Secretariado, e deixá-los ser eles a indicar o nome. Mas os jovens turcos não se amedrontaram com a presença de uma figura como Guterres, que por aquela altura não conheciam, e estavam irredutíveis. “Tivemos mais votos, portanto quem indica o representante da Covilhã para a comissão nacional temos de ser nós”, diria, citado na biografia de Eduarda Maio. Fim de história. Guterres tentaria novamente, já em Lisboa, na véspera do congresso, mas mais uma vez sem sucesso: “Pronto, ganharam”. Foi assim que Jorge Patrão, o amigo de sempre de Sócrates, foi eleito para a comissão nacional do PS.

 

À conquista da Federação de Castelo Branco (e um segundo take contra Seguro)

 

Depois da concelhia, o distrito. Próximo passo: conquistar a federação de Castelo Branco. “A ambição política dele só se começou a notar mais quando foi para a federação de Castelo Branco, a partir daí é que tomou o gosto”, conta ao Observador um amigo próximo que prefere não ser identificado. É que se Jorge Patrão tinha sido o nome indicado pela Covilhã para os órgãos nacionais do PS, agora era a vez de ser José Sócrates a brilhar. O plano era derrotar os soaristas de Castelo Branco e fazer eleger Sócrates no congresso distrital de fevereiro de 1984. A tarefa não era fácil, já que os delegados afetos a Mário Soares estavam em maioria e tinham 30 lugares por inerência. Se conseguisse, Castelo Branco viria a ser uma das primeiras distritais a apoiar formalmente o ex-Secretariado (a fação de Guterres) em vez de apoiar Mário Soares, que na altura estava no Governo de mãos dadas com o PSD. E se José Sócrates fosse o homem responsável por liderar a primeira distrital que apoiava Guterres, certamente não seria esquecido.

 


“Foi o António Guterres que me apresentou o José Sócrates, por volta de 1983, depois da confusão das listas a deputados no distrito de Castelo Branco nas legislativas de 1983. A vitória na Covilhã impressionou-o. Guterres falava dele como um político muito promissor, com muita admiração.”

Edite Estrela

Assim foi. “O Jorge Patrão disse-me: agora vamos conquistar a federação de Castelo Branco. Federação? Eu naquela altura nem sabia como é que o PS se organizava. O Jorge é que me explicou tudo”, conta Sócrates na biografia de Eduarda Maio. O plano era fazer uma lista única de socialistas na Covilhã, que albergasse tanto soaristas como afetos ao ex-Secretariado. Depois do brilharete que os jovens turcos da Covilhã tinham feito no congresso do PS, estavam bem posicionados. Sócrates encabeçaria a lista, não só porque, lá está, era a sua vez de brilhar, como também porque, explica na mesma biografia, se Jorge Patrão era considerado radical aos olhos dos soaristas, José Sócrates (que na altura era pouco conhecido por este nome de filósofo, mas mais por José Pinto de Sousa) não tinha anticorpos e era considerado mais moderado.

Ainda assim, foi preciso um plano em duas frentes. Aos socialistas da Covilhã, Sócrates puxava pela rivalidade entre municípios e dizia que a única chance que tinham de ganhar o congresso aos socialistas de Castelo Branco (que ganhavam sempre) era as duas fações (soaristas e ex-Secretariado) unirem-se. Aos socialistas dos outros concelhos, incluindo Castelo Branco, o truque era não falar de rivalidades entre os municípios e apontar antes aos apoiantes do ex-Secretariado com a conversa de que tinham de se unir para ganharem o primeiro distrito a Mário Soares. Para isso, os socialistas da Covilhã eram imprescindíveis. Plano traçado, e até António Guterres se empenhou, ele próprio, em ver José Sócrates eleito líder da federação distrital de Castelo Branco. Apresentou-o a todos os homens do distrito que precisava de conhecer, recolheu apoios e espalhou a palavra.

Armando Trigo de Abreu, António Guterres e José Sócrates numa conferência de imprensa no Parlamento sobre áreas protegidas, em 1990

O carimbo Guterres foi decisivo para os socialistas da Covilhã, encabeçados por Sócrates, terem conseguido eleger 21 delegados ao Congresso de Castelo Branco, numa lista única, que juntava de forma inédita no concelho soaristas com guterristas. Foi o suficiente para fazer frente à lista de Martins Pires, até então líder da distrital, afeto à direção de Mário Soares. A lista de Sócrates, que contou com os apoiantes do ex-Secretariado de Idanha-a-Nova e Penamacor, venceu o Congresso por uma margem estreita, mas venceu: 46 votos contra 44. A 12 de fevereiro de 1984, com 26 anos, José Sócrates tornou-se líder da federação socialista de Castelo Branco, conseguindo o feito a que se tinha proposto: ser a primeira federação a apoiar os socialistas do ex-Secretariado, oposição interna ao PS de Mário Soares.

Nos dias seguintes, a 17 de fevereiro, o Jornal do Fundão trazia a notícia sobre o Congresso: “Vitória do ex-Secretariado em maré de reconciliação”. “O desfecho do Congresso de Castelo Branco projetou Guterres. Muitos dirigentes nacionais têm curiosidade em conhecê-lo e a corte de Lisboa começa a abrir-se”, lê-se na biografia “Sócrates — O menino de Ouro do PS”. Mas não foi só Guterres a ganhar projeção com a eleição. O próprio José Sócrates ficou com maior protagonismo — e era apenas um engenheiro da câmara da Covilhã, que só tinha entrado para a Jota três anos antes.

Nas legislativas de 1985, que puseramm fim ao Governo de Bloco Central e elegeram Cavaco Silva como primeiro-ministro, o PS não ganhou em Castelo Branco e Sócrates não conseguiu o que mais queria nessa altura: ser eleito deputado à Assembleia da República. Ainda assim, recandidatou-se no ano seguinte a um novo mandato no distrito, e conseguiu manter-se como líder da federação. Por essa altura, Mário Soares tinha perdido o governo mas vencera as eleições presidenciais. Quem foi o adversário de Sócrates nesse segundo takedistrital? António José Seguro, natural de Penamacor, que era muito crítico da gestão socrática no distrito, apelidando-a de “um clube de amigos”, segundo notícias recolhidas da altura.

Jornal Notícias da Covilhã de 11 de Abril de 1986

No Notícias da Covilhã de 11 de Abril de 1986, José Sócrates é citado a descrever o porquê da recandidatura: “Em primeiro lugar, recandidato-me porque faço um balanço positivo do trabalho da atual federação. Podemos estar satisfeitos com o trabalho desenvolvido nos últimos dois anos, designadamente com o período que vai desde maio até às eleições presidenciais, durante o qual foi desenvolvido um intenso trabalho eleitoral. Depois da derrota eleitoral de 6 de outubro, o partido reagiu muito bem e todos os militantes arregaçaram as mangas, não se deixaram vencer pelo desânimo e, pelo contrário, encontraram na sua condição de socialistas mais razões para se afirmarem como homens de esquerda e como cidadãos interessados no desenvolvimento do seu país num prisma de solidariedade e de justiça social. Assim, também porque estou profundamente envolvido na nova postura que acho que o PS deve assumir no futuro e que corresponderá ao fecho de um ciclo que o PS teve nos últimos anos, caracterizado por uma liderança carismática muito forte e ao começo de um ciclo que com certeza o PS irá ver caracterizado pela renovação da proposta, projeto e modos de atuação interna do partido, me recandidato ao cargo que exerço”. A ideia era apoiar Vítor Constâncio como próximo secretário-geral do PS.

Sócrates contra António José Seguro, ganhou Sócrates. Reinou o “consenso na renovação”, como apelidava o Notícias da Covilhã no dia 24 de abril de 1986, na antevéspera do Congresso que iria votar as duas moções. Dos 76 delegados, 56 apoiaram Sócrates. Consolidada que estava a sua posição no distrito, foi precisamente nesse ano que conseguiu pela primeira vez chegar aos órgãos da direção nacional do PS, numa sequência previsível: Vítor Constâncio é eleito secretário-geral no congresso de junho; Guterres volta para o secretariado do partido e para a comissão política nacional; leva consigo José Sócrates e Jorge Patrão, os jovens turcos que o tinham ajudado — e que assim se tornam dirigentes nacionais do PS.


“A ambição política dele só se começou a notar mais quando foi para a federação de Castelo Branco, a partir daí é que tomou o gosto.”

Um amigo próximo de José Sócrates em declarações ao Observador

 

Tudo seguiu o rumo que Sócrates queria. O governo minoritário de Cavaco Silva acabou por cair, e, nas legislativas de 1987, que deram a primeira maioria absoluta a Cavaco, José Sócrates conseguiu uma vitória pessoal: é o número dois da lista de deputados por Castelo Branco, logo atrás de António Guterres, e aos 29 anos chega pela primeira vez à Assembleia da República.

 

Acompanhe a reportagem na integra em o Observador »»»

 

“Ele escolhia temas que lhe davam protagonismo político, como os da defesa do consumidor, quando obrigou a PT a disponibilizar aos clientes facturas detalhadas. Muitas vezes eram questões polémicas, mas ele contava sempre com o apoio maioritário da opinião pública. Era muito habilidoso em conseguir sempre isso.”

OBSERVADOR: Um socialista que não quis ser identificado