Memórias que Abril preserva

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Concentração na Praça do Município da Covilhã, em 25 de abril de 1974

O 25 de abril é uma data marcante para o povo português. A «revolução dos cravos», protagonizada pelos militares portugueses derrubou a ditadura em 1974, e devolveu ao povo a liberdade, que foi festejada por todo o país. Na Covilhã, cidade com forte cultura operária e tradição associativa, os festejos foram intensos, com a mobilização da população, em geral, e dos trabalhadores, em particular, para o Pelourinho

Por efeméride das comemorações do 44º aniversário da data da revolução, o Imperativo ouviu diversos testemunhos de antigos trabalhadores, um delegado sindical que já exercia estas funções antes do ’25 de Abril’ e o coordenador da União de Sindicatos de Castelo Branco, que também falou do programa comemorativo que esta entidade promove para festejar este ano, o 25 de Abril e o 1º de Maio.


 

Manuel Carrola

“Um dos momentos mais marcantes a que assisti até hoje”

Manuel Carrola já exercia as funções de delegado sindical antes do 25 de Abril. Diz que se lembra “como se fosse hoje” de receber a notícia do «Golpe de Estado» e dos festejos que se seguiram na cidade da Covilhã. “Trabalhava na firma Alberto Roseta. Quando cheguei à empresa, o mestre informou-me que estava acontecer algo, já que na rádio apenas passava música de fundo. Para mim não foi estranho, porque já tinha conhecimento do golpe falhado/ensaiado e sabia que a revolução estaria para acontecer”, afirma.

Recorda que após a confirmação do «Golpe de Estado» “as fábricas e as escolas fecharam”, ocorrendo uma “forte mobilização para o centro da cidade da Covilhã”. Lembra que o edifício da autarquia covilhanense foi ocupado pacificamente pelos populares que saudavam as milhares de pessoas que se concentraram no Pelourinho e gritavam «Viva a Liberdade».

Contudo, para Manuel Carrola, o 1º de Maio “foi mais marcante. Digo mesmo que foi um dos momentos mais marcantes a que assisti até hoje”. Além da forte mobilização do povo, justifica que o 1º de Maio “veio sustentar o 25 de abril”.

“É preciso perceber que a situação económica e financeira mudou com a entrada de Portugal na Europa. Antes do 25 de Abril tínhamos cerca de 100 fábricas na Covilhã que empregavam dez mil trabalhadores, e hoje, o número de fábricas é bastante reduzido e emprega pouco mais de 2000 trabalhadores”

Manuel Carrola, delegado sindical

Apesar da repressão existente Estado Novo, liderado por António de Oliveira Salazar, de 1933 a 1968, e posteriormente, até à revolução por Marcelo Caetano, Manuel Carrola conta que na Covilhã, o povo já se tinha manifestado, com a realização de greves antes do 25 de Abril. “Em finais dos anos 60, os trabalhadores da Nova Penteadora e da fábrica Ernesto Cruz fizeram greve. A

“A qualidade de vida dos portugueses não melhorou face ao que se perspetivava. Hoje o desemprego é acentuado, com grande número de jovens sem trabalho, a justiça não funciona, muitas empresas ficam sem pagar aos trabalhadores e as reformas são pequenas” – Maria Fazendeiro, ex-operária

Covilhã tinha um forte movimento associativo e o convívio nas coletividades permitia-nos conversar e abordar reivindicações, como o aumento do salário e conseguimos pequenas conquistas ainda antes do 25 de Abril”, recorda.

Passados 44 anos da restituição da democracia ao povo português, Manuel Carrola afirma que “a liberdade e a democracia foram conseguidas”, bem como “a melhoria das condições de vida”, sublinhando que “o povo era pobre, havia casas sem luz e muitas crianças iam descalças para a escola.

Assinala, no entanto, que “hoje há outros problemas sociais que carecem de resposta, como a exploração laboral que se pratica ou o desemprego que tem taxas elevadas”. “É preciso perceber que a situação económica e financeira mudou com a entrada de Portugal na Europa. Antes do 25 de Abril tínhamos cerca de 100 fábricas na Covilhã que empregavam dez mil trabalhadores, e hoje, o número de fábricas é bastante reduzido e emprega pouco mais de 2000 trabalhadores”, conclui.

 

 Luís Garra

 “Contexto político exige forte mobilização dos trabalhadores”

Com 17 anos quando se deu o 25 de Abril, Luís Garra já trabalhava há sete. “Estava na fábrica e as pessoas começaram a referir que tinha havido um «Golpe de Estado». Depois é dada a palavra de ordem para sairmos para a rua e lembro-me do entusiamo, da alegria e da satisfação que circulava pelas ruas da Covilhã”, recorda.

O coordenador da União de Sindicatos de Castelo Branco (USCB) concorda que “há outras exigências que necessitam de reposta por parte do Governo”, mas sublinha que “não podemos fazer um discurso negativista sobre o 25 de Abril. Vivi a situação gravíssima antes do 25 de Abril, um país sem futuro e vivi, depois intensamente, o 25 de Abril e as transformações que ocorreram. Não tem comparação. Foram dados saltos extraordinários a todos os níveis, no plano laboral, salarial, mas também social. Antes do 25 de Abril não havia direito à educação, nem existia Serviço Nacional de Saúde. Registaram-se também avanços significativos na proteção social, na evolução das reformas, na área da justiça e na política de habitação e de transportes”.

“Antes não havia liberdade, não podíamos conversar com ninguém, pois o medo era permanente. O 25 de Abril trouxe liberdade, melhores salários e apoio social. Por tudo isto, que é muito, valeu a pena”

 

Benvinda Saraiva, domésticaNo entanto, Luís Garra refere que “há muitas questões incompletas”, mas nota que “um processo democrático está em permanente evolução. Há matérias que estão a regredir e esta solução governativa foi determinante para a reposição de direitos, mas há a sensação que este governo se está a dar por satisfeito com o pouco que já conseguiu. E é pouco face às expectativas e às necessidades da população. É necessário ir mais além”, assevera.

Nesse sentido, Luís Garra adianta que para comemorar o 25 de Abril e o 1º de Maio, a USCB apresenta um “programa vasto”, pautado pela diversidade de iniciativas na Covilhã, Castelo Branco, Tortosendo e Minas da Panasqueira. Do programa destaca a realização de provas desportivas, que “envolvem muita gente e representam uma forma de apego popular aos valores do 1º de Maio”, mas também sublinha a realização da manifestação no Tortosendo, da intervenção sindical na Covilhã, a Feira do Livro e da Pintura e uma tertúlia, no dia 28, no café do Jardim sobre a situação da cultura, esperando que “também nesta área se venha a cumprir Abril e se dote a cultura de um orçamento que há vários anos anda a ser reivindicado”.

Todas as iniciativas programadas pela USCB têm o objetivo de “mobilizar os trabalhadores”, afirma, destacando que “o contexto político assim o exige”. “Vamos tentar que as comemorações do 25 de Abril e do 1º de Maio sejam um reflexo das mensagens fortes que os trabalhadores têm incorporadas nas suas reivindicações. Essas mensagens estão relacionadas com os problemas laborais, nomeadamente a contratação coletiva, o pagamento do trabalho complementar com os valores que se praticavam antes das alterações ao código de trabalho, a fixação do Salário Mínimo Nacional superior a 600 euros em 2019, a regularização dos precários nos setores público e privado e a introdução de 25 dias de férias”, refere.

“Não podemos fazer um discurso negativista sobre o 25 de Abril. Vivi a situação gravíssima antes do 25 de Abril, um país sem futuro e vivi, depois intensamente, o 25 de Abril e as transformações que ocorreram. Não tem comparação. Foram dados saltos extraordinários a todos os níveis, no plano laboral, salarial, mas também social”

Luís Garra, coordenador da USCB

No distrito de Castelo Branco, em todos os setores de atividade, Luís Garra avança que “42% dos jovens até aos 35 anos têm vínculos precários, mas se analisarmos só jovens até aos 24 anos são 72%. Isto é matar o futuro, amputar a democracia”, afirma.

“O grande 1º de Maio ajudou a consolidar o 25 de Abril”

“O Spínola não queria que o 1º de Maio, a seguir ao 25 de Abril fosse feriado e não queria autorizar manifestações. Uma delegação da Intersindical reuniu com o Spínola e disse-lhe que quisesse ou não, no 1º de Maio não se trabalharia e iria haver manifestações”, recorda Luís Garra. Para o coordenador da USCB “é importante” lembrar este facto, para que “a história não seja desvirtuada. O 1º de maio foi o grande impulso para que o 25 de Abril fosse uma revolução transformadora e se consolidasse. Sem o 1º de Maio e a adesão popular que essa data teve, não vou dizer que o 25 de Abril não teria êxito, mas seria muito duvidoso que o tivesse, porque as forças fascistas não se entregaram logo e estavam a reorganizar-se”.

 

Célia Fernandes

As “expectativas” frustradas de uma revolução que “prometia mais”

Célia Fernandes era operária na fábrica Ernesto Cruz quando se deu o 25 de Abril. Recorda as manifestações que se realizaram na cidade da Covilhã, a “alegria contagiante” e “as expectativas dos portugueses”. Do 25 de Abril, particularmente, assinala que “permitiu acabar com a guerra colonial, onde o meu marido estava, e quando voltou conheceu o filho que já tinha três anos. A revolução trouxe também liberdade”. Contudo, considera que “as expectativas não foram cumpridas em todos os aspetos”. Aponta que o “custo de vida está muito elevado”, e que “há um número significativo de pessoas em situação muito difícil a nível económico”.

 

“O 25 de Abril permitiu acabar com a guerra colonial, onde o meu marido estava, e quando voltou conheceu o filho que já tinha três anos. No entanto, as expectativas não foram cumpridas em todos os aspetos”

Célia Fernandes, ex-operária

Maria Fazendeiro, também ex-operária, aponta “positivamente” que o 25 de Abril acabou com a guerra colonial e com a grave situação social que se vivia, mas diz que “a qualidade de vida dos portugueses não melhorou face ao que se perspetivava. Hoje o desemprego é acentuado, com grande número de jovens sem trabalho, a justiça não funciona, muitas empresas ficam sem pagar aos trabalhadores e as reformas são pequenas”.

Já Benvinda Saraiva era doméstica quando assistiu à «Revolução dos Cravos» e diz que prefere apenas sublinhar os “aspetos positivos” resultantes do 25 de Abril. “Antes não havia liberdade, não podíamos conversar com ninguém, pois o medo era permanente. O 25 de Abril trouxe liberdade, melhores salários e apoio social. Por tudo isto, que é muito, valeu a pena”, conclui.

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