E os novos ditadores?

Eu pergunto

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Por: João Morgado __________

Ensinam às crianças que, com o “25 de Abril”, acabou a ditadura. Creio que está errado. O que devemos ensinar às crianças, é a reconhecer os novos ditadores:

Antigamente, os ditadores tinham ar austero e uma postura altiva, agora podem ser simpáticos, educados, fofinhos – que assim o manda o marketing eleitoral – mas, cuidado, não deixam de ser ditadores;

Antigamente, os ditadores diziam “quem não está connosco está contra nós” e ripostavam. Agora os novos ditadores dizem-se respeitadores da liberdade de cada um e, depois, atacam cobardemente pelas costas;

Antigamente, os ditadores mandavam as pessoas para a prisão, deixando as suas famílias desamparadas, agora pedem para que as pessoas sejam despedidas dos empregos, para que percam a sua dignidade e não possam ganhar o pão para as suas famílias;

Antigamente, os ditadores tinham os censores de lápis azul que cortavam as notícias incómodas, agora perante o incómodo, os novos ditadores cortam a publicidade aos jornais, e são os próprios jornalistas que se auto-censuram para sobreviver;

Antigamente, tinham os “bufos” pagos que denunciavam o que as pessoas diziam nos cafés ou no emprego, agora os novos ditadores pagam a “controleiros” para verem o que os outros escrevem nas redes sociais e onde põem “gosto”;

Antigamente, os ditadores impunham a lei e a ordem em nome de um controverso “bem nacional”, mas agora é em nome dos seus egos e de interesses pessoais e mesquinhos.

Antes que tenham muitas desilusões, pergunto eu, não será melhor ensinar às novas gerações que o “25 de Abril” pôs a fim a um certo regime ditatorial, mas não acabou com os ditadores? E que, por isso, precisam de ter cuidado com o que dizem – que as paredes ainda têm ouvidos, com o que fazem – que há sempre olhos à espreita, e que a conquista da liberdade é uma batalha sem fim para que somos chamados com coragem.

É preciso ensinar às novas gerações que o “25 de Abril” continua hoje, amanhã, depois de amanhã, sempre… não é uma data, é um mote para o futuro.

Nota: E já agora, podemos começar a olhar com olhos de ver, para os “democratas” que dirão lindas palavras nos discursos do “25 de Abril”. E depois, poderemos cantar aquela velha canção de José Barata Moura: “Cravo vermelho ao peito a muitos fica bem, sobretudo, a certos filhos-da- mãe…”