Pêro da Covilhã: a vida de um espião nos séculos XV e XVI

Os historiadores acreditam que Pêro da Covilhã, diplomata dos tempos antigos e famigerado explorador português, terá nascido na Covilhã, em 1450

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Estátua de Pêro da Covilhã - Praça do Município

É a este ilustre covilhanense, eternizado através da estátua edificada na Praça do Município, que se devem as informações essenciais à descoberta do caminho marítimo para a Índia, comandada por Vasco da Gama.

Partiu para Espanha ainda jovem e lá serviu os representantes do ducado de Medina-Sidonia, cujo título, ainda existente, hoje pertence a D. Leoncio de Toledo. Anos mais tarde, Pêro da Covilhã acompanhou este nobre espanhol a Portugal e conheceu o rei D. Afonso V, que o acolheu a seu serviço. Casou na Covilhã, diz-se que na Capela de São Martinho, e foi pai anos mais tarde, tendo baptizado o seu filho de Afonso, em homenagem ao rei. Por incumbência de D. João II, que entretanto sucedera a D. Afonso V, participou nas investigações à famigerada conspiração da nobreza contra o rei, encabeçada, segundo consta, pelo Duque de Bragança.

As grandes aventuras de Pêro da Covilhã iniciaram-se quando D. João II lhe confiou tarefas de diplomata, incumbindo-o de visitar Fez, actualmente cidade irmã de Coimbra, localizada em Marrocos, entre outros reinos nas proximidades, para alcançar acordos de amizade e tratados de paz, que assim permitiriam dar continuidade à exploração por terras do Oriente. Outros mandatários, como Pedro Montarroio e António de Lisboa, haviam tentando encontrar Preste João, soberano do mítico reino Cristão expandido no Oriente, onde hoje se localiza a Etiópia, falhando pelo pouco conhecimento da língua árabe.

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Em 1487, enquanto Bartolomeu Dias dobrava o Cabo da Boa Esperança, primeiramente conhecido por Cabo das Tormentas, Afonso de Paiva, explorador nascido em Castelo Branco, e o covilhanense Pêro da Covilhã partiam à descoberta do Oriente por terra. Saíram de Santarém, após indicações dos conhecidos cosmógrafos portugueses, entre eles o covilhanense José Vizinho, disfarçados de mercadores e só se separaram em Adem, actualmente Iémen. Pêro da Covilhã seguiu para a Índia, onde recolheria informações vitais para o domínio da costa indiana e seu respectivo comércio. Afonso de Paiva foi em demanda de Preste João mas morreria antes de completar a sua missão.

Pêro da Covilhã, informado do sucedido por dois judeus enviados por D. João II e após entregar o relatório com as referidas informações, seguiu em busca do mítico e poderoso reino Cristão, circundado de povoados muçulmanos, regido pelo famigerado Preste João [Preste é uma deformação da palavra Prêtre, em francês, que significa Padre].

Pêro da Covilhã no reino de Preste João

Dali em diante o covilhanense começava uma nova vida. Após concluir o seu trabalho foi-lhe ordenado, pelos consecutivos soberanos do reino, que ali ficasse, chegando a ser conselheiro da rainha Eleni, a quem recomendou uma aliança com o reino de Portugal. Ali casou e deixou descendência, como no seu país.

Com a ascendência de D. Manuel ao trono, Francisco Álvares e D. Rodrigo de Lima foram enviados ao reino do Preste João, em busca do covilhanense. Francisco Álvares escreveria mais tarde o livro “Verdadeira informação das terras do Preste João das Índias”, onde constam relatos detalhados dos costumes de época. Diz-se que, em meados dos anos 20 do século XVI, os mouros invadiram o mítico reino com intuito de o conquistar, destruindo todos os símbolos da ocupação cristã, e que Pêro da Covilhã, qual bravo português, com mais de setenta anos de idade, ainda lutou ao lado dos seus.

Francisco Álvares escreveu, referindo-se a Pêro da Covilhã, que “em todas as coisas a que o mandaram soube dar conta”. Esta é a nobre história do homem eternizado pela estátua que vemos todos os dias, no centro da cidade da Covilhã.