Da primeira mulher cigana a ter carta de condução em Portugal a um grupo de jovens que luta por um nome, estas são as histórias de quem existe, resiste e destrói preconceitos. As mulheres ciganas existem. E resistem

“Só tenho de pena que sejas uma mulher, se fosses um homem tudo seria mais fácil”, dizia-lhe o pai a caminho da escola. “Olhem aqui para a minha ciganinha, é tão bonita que não parece cigana”, repetia a professora primária às colegas, a julgar que se tratava de um elogio. Entre estes dois mundos crescia Sónia Matos.

Quando completa 10 anos, o equilíbrio altera-se e um dos lados ganha mais peso que o outro. “No quarto ano a minha rotina mudou. A professora para me incentivar dizia ‘se tu não te aplicas, não passas’. Entretanto, já estava desmotivada, já sabia que era o meu último ano na escola. A minha mãe tinha tido uma bebé pequenina e eu andava maluca com a minha irmã. Para mim era uma bonequinha. Então disse: ‘olha mãe, a professora diz que eu já não passo, já não vou no último mês’. E pronto. Foi assim que saí da escola”.

Longe das salas de aula, a infância de Sónia, tal como a de muitas meninas ciganas, é desenhada com os lápis da tradição. “Quando terminamos a quarta classe, retiram-nos da escola para nos prepararmos para sermos mães, esposas e domésticas. O mesmo que exigiam à mulher da comunidade maioritária há 40 anos atrás”. Assim, Sónia começa então a aprender as tarefas de casa, bem como a tomar conta dos irmãos mais novos. Nos tempos livres, encontrava as amigas na rua – que temporariamente se transformava num campo de futebol ou num palco de competição de saltos à corda.

Com o passar da idade e a adolescência a florescer, as brincadeiras mudam. “Com 15 anos, as minhas amigas começaram a receber pedidos de noivado e eu não me sentia preparada para casar”. Ainda que já soubesse de cor os afazeres que uma casa exigia, Sónia procurava qualquer coisa diferente. “Comecei a juntar todos os tostõezinhos que me sobravam das compras do almoço para comprar livros, o que me permitia entrar noutro mundo, num mundo imaginário”.

Quando as primeiras inquietações se misturam com a vontade de ler dá-se, finalmente, o clique: “Comecei a questionar porque é que os rapazes podiam tudo e as raparigas não podiam estudar. Eu queria ter um trabalho, ter autonomia, poder escolher aquilo que queria ser, sem deixar de ser cigana. Isto abriu uma batalha dentro de mim”.

“O MEU PERCURSO ESCOLAR FOI ACOMPANHAR O PERCURSO ESCOLAR DO MEU IRMÃO.”

No verão, Sónia deixava a rotina por umas semanas para ir visitar os avós no Alentejo, e é também nas brincadeiras do tempo de meninice que conhece Alzinda Caramelo. “Éramos amigas de infância. Eu vivia no Alentejo e brincávamos lá. Depois vim também para o Seixal porque no Alentejo só havia feira de mês a mês e cá o negócio era melhor”, lembra Alzinda, que também deixou a escola no quarto ano.

Entre os seis irmãos — três rapazes e três raparigas — era tratada como a “menina” por ser a mais nova das meninas. Ainda que as lides domésticas recaíssem primeiro sobre as raparigas mais velhas, cedo Alzinda ficou encarregada de tomar conta do percurso escolar do irmão mais novo. “Todos os dias levantava-me, arranjava o meu irmão, dava-lhe o pequeno-almoço e levava-o à escola. Voltava para lhe levar o lanche, porque ele era o menino, e para o ir buscar para o almoço. O meu percurso escolar foi acompanhar o percurso escolar do meu irmão”.

Aos 22 anos, por ser beneficiária do Rendimento Social de Inserção, conhece uma assistente social que ousa perguntar: “E tu, Alzinda, o que gostavas de fazer?”. Surpreendida com a pergunta, que lhe tinha sido colocada pela primeira vez, confessa que sonhava “trabalhar, subir a escolaridade, tirar a carta, ser independente, e conseguir fazer algo que deixasse marca para outras mulheres”.

“TINHA OUTRA PRIORIDADE. EMPODERAR-ME E EMPODERAR OUTRAS MULHERES.”

Também Maria Noel Gouveia, ao contrário do que seria esperado pela comunidade, não fantasiava com o dia do casamento. “Tinha outra prioridade. Empoderar-me e empoderar outras mulheres”. Depois de, como as outras, ter sido retirada da escola no quarto ano de escolaridade, Noel ia treinando a leitura — e a imaginação — com os ‘calhamaços’ que faziam o lugar de amigos.

“Adorava ler. Sempre que podia ia à biblioteca, ou pedia livros às minhas vizinhas. Elas queriam-me oferecer vestidos mas eu pedia-lhes romances”. O gosto pela leitura tinha sido herdado da mãe, Olga Mariano, que, já em pequena, nos anos 1950 e 60, lia os “livros das meninas ciganas”, como os do espanhol Carlos de Santander. “Não íamos buscar outro tipo de leitura”, assegura.

Quando atravessava um período de luto pela morte do marido, com três crianças para cuidar, Olga não se pode resguardar na casa dos pais durante o primeiro ano de luto — como é costume na cultura cigana. Levantava-se, então, todos os dias para vender nas feiras, onde “tanto podia fazer 5 euros ao dia como 40”.

Contudo, ao contrário da maior parte das mulheres, Olga deslocava-se no próprio carro. “Fui a primeira mulher cigana em Portugal a ter a carta, nos anos 60”. Na altura, como os irmãos mais velhos já viviam nas suas casas e o pai precisava de ajuda na correria entre as feiras, calhou a Olga o “privilégio” de ter a carta, uma miragem para outras mulheres ciganas na altura.

No princípio do novo milénio, Sónia Matos e Alzinda Caramelo encontram-se com Maria Noel Gouveia e Olga Mariano. Foram chamadas a fazer testes para a integração do curso de mediação sociocultural. “O curso era administrado pelo centro de Estudos e Migrações. Era destinado a pessoas que recebiam o Rendimento Social de Inserção, como nós, e houve uma grande seleção. Nós acabámos por entrar todas para o curso, porque tivemos notas muito boas”, conta Noel.

O curso tinha a duração de um ano e ocupava todos os dias de semana, das nove da manhã às cinco da tarde. Tratou-se de uma questão de tempo até estas mulheres se começarem a destacar. “Fomos todas para o curso com a auto estima [educacional] baixa, porque o nosso percurso era completamente diferente do resto das pessoas que lá estavam, mas nós tínhamos sempre das melhores notas”, conta Alzinda.

Com a consciência de que o curso podia mudar o rumo das suas vidas, abraçaram, com um empenho e interesse ímpares, todas as atividades propostas. “Esta foi a única oportunidade que me deram e eu tive de a agarrar”, conta Noel. “O curso era muito importante para nós, meninas solteiras ciganas, que até então não tinham voz e não podiam sonhar mais ou ambicionar mais do que trabalhar em casa”, acrescenta Sónia.

 

NA COMUNIDADE CIGANA, AS MULHERES SÃO TRATADAS COMO UMA FLOR: SEMPRE RECATADAS, SEMPRE PROTEGIDAS E SEMPRE ACOMPANHADAS. MAS NUNCA COM NOME PRÓPRIO.

Depois de 6 meses de aulas, o professor Bruno, “que tinha um estilo assim meio hippie”, apercebeu-se de que o curso podia ser só o início para estas mulheres. Lançou-lhes um desafio: “Vocês, que são mulheres com tanta garra e com faixas etárias diferentes, porque é que não se lançam e criam uma associação?”.

Todas com “20 e poucos anos”, à exceção de Olga, nunca sequer tinham ouvido falar de algo parecido. “Para nós foi muito estranho. Na altura nem sabíamos o que era uma associação, tão pouco para o que servia”. Por outro lado, não restavam dúvidas de que todas queriam o mesmo: “ser mulheres autónomas, independentes, com estudos, e permitir que as outras mulheres também o fossem”, conta Noel. “Um dia reunimo-nos e começámos a pensar que podia ser possível termos uma associação. E assim nasceu a AMUCIP, a primeira associação para o desenvolvimento das mulheres ciganas portuguesas”.

Desde o primeiro dia, conta Alzinda, a prioridade era trabalhar com as mulheres e as crianças. “As crianças porque são o futuro, e as mulheres porque precisamos de dar o grito” — grito que não implica o rompimento com a cultura cigana.

Pelo contrário, todas tecem elogios ao que, segundo elas, a sua cultura tem de melhor, como o respeito pelos mais velhos e pelas crianças, a honra do nome e o valor da palavra, o respeito pelas leis de apaziguamento — feitas pelos homens mais velhos, considerados sábios e honestos — e a preservação dos laços familiares fortes. Contudo, reconhecem também a atitude profundamente patriarcal e machista que têm de enfrentar. Na comunidade cigana, as mulheres são tratadas como uma flor: sempre recatadas, sempre protegidas e sempre acompanhadas. Mas nunca com nome próprio.